A Era da Internet Discada

Assim, que nos conhecemos, começamos a pensar o que poderiamos fazer de diferente e interessante na Internet.

Não haviam muitas referências online, tudo ainda era muito novo, o maior passa-tempo ainda era descobrir sites novos, que em geral não apresentavam nenhuma revolução ou atrativo novo, apenas conteúdo diferenciado.

Na verdade, a nossa grande preocupação naquela época ainda era como reduzir os custos da navegação. Afinal, toda internet ainda era discada, e pra isso era necessário contratar um plano de horas de acesso em um provedor de internet e utilizar uma linha telefônica. 

Como todos nós, ainda morávamos com os pais e não tínhamos renda, sempre que a fatura telefônica chegava era um Deus nos acuda em casa, e tínhamos um contador de horas do provedor de internet, que nos avisava sobre o consumo mensal, sempre que a gente estourava aquele limite, tínhamos que esperar uma eternidade o mês virar para conectar novamente.

Lembro de várias vezes, que eu entrava rapidinho na internet ficava de olho no relógio/contador do provedor, mas a internet era tão lenta que qualquer coisa por mais simples que fosse levava tempo, e nos consumia dinheiro de telefone e provedor.

Ainda existia aquela agonia de ver os pontos vermelho e verde que ficavam ao lado do relógio do Windows 95 pararem de piscar ( esses pontos sinalizavam o TX e RX do modem interno), e as vezes por diversos motivos ficavam alguns segundos inativos sem trafegar nada, mas isso não diminuía o seu consumo de tempo de telefone e provedor.

A taxação sempre vem da maneira aonde ela consegue ser maior, basta pensar, antigamente aonde tudo na internet era demorado, eles te cobravam por tempo, hoje aonde a internet é rápida e você pode baixar todo o tipo de conteúdo, eles te taxam por tráfego de dados.

Para reduzir os custos, havia a possibilidade de ficar conectado entre meia-noite e seis da manhã, aonde as operadoras telefônicas, cobravam apenas um pulso. O motivo pra cobrança dessa tarifa diferenciada já foi explicada aqui no Matriz de Risco pelo Warwar.

Isso acontecia por causa de um acordo entre os bancos e as telefônicas, já que todas as transações bancárias, eram processadas de madrugada. Como todas as agências deviam transferir dados para suas centrais, imagina o quanto seria custoso para os bancos os gastos com telefone no fim do mês. 

Dai em mais um daqueles acordos que só acontecem aqui no Brasil, o governo (até então donos das teles), que deveriam ver nos bancos uma grande fonte de receita, já que os mesmos faturavam como ainda faturam milhões, decidem dar essa “molezinha” pra eles e cobrar uma das tarifas telefônicas mais cara do mundo da população.

Então, começamos a procurar alternativas de como reduzir os custos de acesso a internet, existiam uns aceleradores de internet, que na verdade não passavam de um Placebo, e o pior, além da internet ser cara e lenta, ainda era extramente instável.

Se alguém pegasse na extensão, ou se houvesse um ruído por menor que fosse, sua conexão caia na hora, e caso você estivesse fazendo downloads, era pior ainda, ele não recomeçava de onde parou, você tinha que começar do zero.

Ser um provedor de internet começou a se tornar o negócio do futuro, entraram vários players no mercado, os grandes UOL, AOL, BOL, Terra até o SBT resolveu se aventurar nessa e lançou o SOL, em paralelo aos gigantes existiam provedores menores locais como Infolink, Biohard etc, que em pouco tempo foram engolidos pelos gigantes.

As teles também viram ai um grande filão e tínhamos a i-telefonica, click21, inteligweb, Oi, etc.

Depois de um tempo, as coisas começaram a melhorar graças ao surgimento do IG, era um provedor de acesso gratuito, ou seja você só pagava a ligação e não mais o provedor, e além do mais vinha com um e-mail com incríveis 10mb de armazenamento de graça, muito maior que o popular Zipmail de 1mb ou o UOL que era pago e oferencia 5mb.

Ai a briga começou a ficar feia, os provedores de internet pago foram perdendo clientes que começaram a migrar para o IG, e começaram a aparecer outros provedores de Internet de graça como POP, iBest, os própios provedores de internet paga começaram a lançar serviços gratuitos com o objetivo de não perder mercado, a Uol por exemplo lançou o BrFree e o Terra o Terra Livre.

Lembro que no início era tão difícil conseguir conectar em um desses provedores free que a gente tinha instalado uns 10 discadores diferentes, pois nos horários de pico a linha sempre dava ocupada.

Dai, quando achávamos que a briga não teria como ir pra um outro nível apareceu o Super11, um provedor que além de gratuito, disponibilizava uma linha 0800, ou seja, você não pagava nem mais o provedor nem a linha telefônica.

Conectar ao Super11 era um trabalho pra tarde inteira, e quando você conseguia falava pra todos em casa: “Ninguém pega no telefone por que eu to conectado no Super11”, e ficávamos o quanto conseguíamos, logo o Super11 percebeu que que conectava lá, não desligava mais, e começou a derrubar os usuários depois de um tempo.

Daí, alguém teve a idéia genial, de que tudo de graça já não bastava mais, e decidiram pagar pra você navegar !!! 

A Orolix te pagava R$0.48 por hora de conexão, ou seja, seu computador e a internet viraram literalmente uma máquina de fazer dinheiro, lembre-se que estamos falando do final da década de 90, aonde o salário mínimo estavava por volta de R$ 130,00 reais, ou seja, 260 horas de conexão por mês (algo em torno de 8,6 horas por dia) te rendia 1 salário minimo no final do mês.

Em troca da grana, o discador do Orolix mostrava alguns anúncios na sua areá de trabalho do então moderno Windows 98, que logo alguém inventou um bloqueador pra você não ficar sendo incomodado com aquele banner, o bloqueador era líder de downloads no Superdownloads e Baixaki, os sites de download mais famosos daquela época.

Bom, não precisa ser um “Stiffen Halfin” (Se não entendeu o trocadilho, escute o episódio Piloto Espacial do Matriz de Risco), pra ver que o negócio não era sustentável e não tinha futuro algum.

Sendo assim no início dos anos 2000, os provedores de acesso grátis começaram a ruir, um após o outro, somados ao inicio dos serviços de Internet “Banda Larga” , (coloco entre aspas pois um plano de 512kbs ou 1mb naquela época era considerado Banda Larga),  o fim da era da internet discada estava anunciado.

As teles começaram a oferecer as LP´S (linhas privadas) de conexão, começaram a aparecer os provedores de internet a rádio, e as tv´s por assinatura estavam se estruturando para oferecer internet através das suas redes de cabo.

O cachorrinho do IG deu sua última latida, foi devorado pro uma cobra gigante de cobre que corria por baixo da cidade levando sinal de TV e agora de Internet.

Mas ai é um assunto pro próximo capitulo, da série Braun na Vanguarda, aqui no Matriz de Risco.